O atirador do Arizona, os evangélicos no Brasil e os Maçons, qual relação?

Introdução
O presente texto tem por pretensão dissertar sobre dois temas aparentemente dispares. Um ato violento lá no longínquo USA e um conjunto de práticas oratórias de indivíduos que se intitulam evangélicos aqui no Brasil.
O tema requer considerações preliminares para, na pressa, não fazermos conclusões apressadas. Não se trata de mero rodeio, ou de firulas textuais com propósito apenas de prender o estimado leitor de meus textos.
Com a comunicação, sobretudo a que é feita pela internet, as regras da boa retórica, aquela arte muito bem fundamentada pelo filósofo Aristóteles no Livro Retórica, sempre são bem vindas. Na pressa dos dias de hoje, corremos o risco de não nos delongarmos na meditação das informações que nos chega. A conclusão apressada, dado aos nossos fazeres cotidiano, no entanto pode nos levar a lugares que, se pensando com calma, jamais iríamos.




A questão em si
A questão do “atirador do Arizona”, na cidade de Tucson, acontece em meio a um contexto de intolerâncias e discursos simplistas. Este estado do “oeste americano” tem alguns problemas clássicos da intolerância. As questões da migração ilegal é uma das principais. Parece que todos os males de um ‘arizonense’ é causado por um ‘ticano’ maldito que entrou ilegal em seu país, estado.


Movido por esse ódio na base, indivíduos projetaram sobre figuras políticas seus anseios. Entre estas, figura a política Sarah Palin que está sendo acusada de prover com seus discursos suprimento ideológico aos tais atiradores do Arizona. O que ela nega veementemente.
A questão básica, sem querer aqui entrar em questões bem especificas de provas, é que temos uma política, dentre vários outro de mesmo naipe, que apregoa um discurso conservador. Preocupado em retomar um “tempo” no passado, uma terra sem males. Onde todos eram felizes. Para tal feito, o presente é tomado como o local do mau. Mas como é possível existir o mau nos dias de hoje?
O anseio de quem pensa assim é construir novamente a terra de bem. Onde tudo será restituído como antigamente.
Neste anseio fora da realidade o presente é o grande problema. Pois ele não se encaixa por completo no passado e muito menos no futuro.  Esta forma de encarar o mundo é considerada como mitológica, pois mito aqui é compreendido como fabuloso, algo que beira a fantasia.
O presente é feio. É preciso identificar o mau no presente, mas o mau não pode ser identificado comigo.  “Eu” e meus parentes não podemos ser inscritos entre os “maus”.  Mas quem será o mau? O diabo?
Geralmente o que é diferente. O outro. Não importa. Em cada época da história humana assistimos essa loucura. Na história mais recente  temos o Nazismo alemão que identificou os judeus como o mau e empecilho da volta do mundo bonito e bom. Na Itália de Mussolini o mesmo. No Japão o “mau” eram os “outros” povos  amarelos. 
No caso de Portugal nos dias hoje são os Brasileiros que para lá migram. Nos USA são os “ticanos”. A simplificação tosca da questão é o combustível.  Fiz uso da expressão “ticano” exatamente para apregoar essa “burrice” sistemática, pois é assim que o estadunidense refere-se aos outros de seu país. Ticano é um jeito pejorativo de referir-se aos mexicanos. Depois, como parte da ignorância, qualquer “outro” em solo estadunidense é visto como um “ticano”, inclusive meu queridos conterrâneos.
Mas este fato sociológico não é prerrogativa do USA ou Portugal. É uma coisa mundial. Em São Paulo este modelo se aplica. Aqui, para os ‘paulista puros’, os nordestinos é o mau. Na verdade os bahianos, pois dentro daquele modelo torpe de pensar, tudo que não é São Paulo é Bahia. A Bahia dos “paulistas” deve chegar até o Amazonas.

Onde entra os Evangélicos e os Maçons?

No jogo de um passado maravilhoso, um presente degradado e a promessa de um futuro maravilham, encontra-se os discursos de lideres religiosos no Brasil. Aplicando as mesma reflexões acima, podemos pensar que no Brasil tem florescido na Internet e televisão um tipo de discurso que caminha para ações “reais” como a do Estado do Arizona. Ao apregoar a estrutura de um passado maravilhoso, onde não havia mau, e um presente malvado, desgraçado, caminhamos para incitar a violência aberta entre nós brasileiros.
Como disse, ao idealizar um passado maravilho e olhar para o presente feio, a vontade é identificar o mau para eliminá-lo. No caso das “igrejas” não dá para dizer que outra Igreja é o mau, pois seria dizer que ela própria é o mau. Precisamos então atacar outras experiências religiosas que não comungam com o tronco comum do cristianismo, pois assim não resta dúvida que esta religião é de fato o “outro”.
Neste imbróglio figuram como mau as religiões de matiz africana e qualquer outra experiência não cristã. Nesta confusão, a Maçonaria é o diabo em pessoa.
A maçonaria é atacada por dois motivos. Um pela sua presença em solo brasileiro. Não é como os templos budistas no Brasil que são poucos. A presença da Maçonaria assemelha-se a presença de muitas Igrejas Cristã, encontra-se de Cruzeiro do Sul no Acre á Porto Alegre no Rio Grande do Sul.
Outro fator da Maçonaria ser classificado como o mau é seu jeito de trabalho e conteúdo. A maçonaria é discreta e não sai à cassa de prosélitos; seu conteúdo filosófico faz com que ela seja semelhante às filosofias da Índia. A característica destas filosofias não é a mesma de um “Deus que se revelou”, que escolheu “Seu povo”, mas cabe a cada indivíduo procurar pelo sagrado. Existe, portanto, a figura daquele que “busca”, procura, insiste.
Sem entrar no mérito de avaliar se é a Religião revelada a melhor ou aquela que o individuo procura, registro apenas que a Maçonaria se encaixa na figura do outro. O diferente aqui não é aceito e ainda é identificado como o mau. Porém, não basta identificar o mau, nesse projeto que campeia pelas mídias é preciso combater o mau, afinal ele impede que “minha felicidade” aconteça. Se a “minha” vida não vai bem, se a “minha” família está desagregada, se o “meu” emprego está um tédio, tudo isto é culpa deliberada do mau. O mau está agindo todos os dias e provocando estas intempéries em minha vida.
O que resta a fazer?

Quando virá a prática?

Todos nós sabemos da cena de um pastor dando chutes em uma imagem de santa. Observando vídeos na internet ou mesmos os programas de televisão fico me perguntando até quando ficaremos nos vídeos? Não teremos em breve um louco matando maçons? Como ocorre com os homossexuais, sobretudos os masculinos, o Estado teve que interferir, pois se não seria licito ou converter o “gay”ou matá-lo. Certamente na tentativa de tirar o “demônio” do corpo dele, o “coitado” morreria. E os Maçons?
O problema maior é que estas retóricas não aceitam contra-argumentação. Não temos como dialogar, pois na estupidez da Fé sempre conclui a seu favor: “você é o mau e precisa ser eliminado”.
Enfim, espero utilizar a pena, digo, o teclado, para dissuadir tempos aguerridos.

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