Saber e Poder



Durante muito tempo, talvez movido pelo clichê “estude para ser alguém”, pensava que a hierarquia social e saber eram unas. Bastava ser muito inteligente  para, desse modo, se posicionar em lugares ditos melhores. Portanto, aqueles que tinham e tem muitas posses eram, naturalmente, pessoas sabias. 

Porém, depois de muitos anos sentindo um certo mau estar, um “algo" sem definição, que me rondava, penso ter chegado a algumas conclusões, sempre provisórias. Saber e poder parece ser a chave da questão e autores como Nietzsche e Foucault o lugar que podemos procurar nos inteirar do assunto. 

O que podemos dizer é que existem vários tipos de saberes. E no caso da hierarquização social se trata de um desses tipo de saberes, que gozam de um conjunto de “coisas boas”. Desse modo saber matemática, ser o gênio, não implica um lugar ao sol. 

Essa “verdade oculta”, da aliança de saber com poder, tem se revelado à multidões de jovens que se apinham nas faculdades “feitas para classes populares”. Após terminarem seus cursos, especialmente o famigerado Direito, descobrem que a tão sonhada subida na hierarquia social não acontece. Descobre que estudar para ser alguém no sentido de “ter poder e, consequentemente, posses não é tão simples assim. 

Se o discurso cínico de que “é preciso ser qualificado para entrar no mercado de trabalho” funcionava outrora com muita facilidade, hoje  ele tem que se munir de outras idiossincrasias. Quando um jovem pobre, dos estamentos sociais  lá debaixo, chega com seu história de formação, sempre irá escutar que falta ainda algo seminal. Seja o também famigerado intercâmbio ou seu parceiro inglês. Porém, como é crime, ninguém irá dizer que ser negro pega mau para certos empregos de saber-poder. Como é permitido fazer outras diferenciações, verifica-se que na escolha de pessoas para cargos de poder se procura privilegiar saberes cultivados nos locais que tais classes frequentam. 

Como não é crime dizer que só viaja para os quem USA quem tem dinheiro, portanto uma discriminação aceita e Legal, ter como valor diferencial quem estudou lá, acaba por dar privilégios as elites do dinheiro. Prática que encontra ampla disseminação pelos meios de comunicação tradicionais, tornando-a a como natural. É natural que o melhor esteja no USA ou na Europa. Logo, saber inglês e fazer intercâmbio é estar pronto para continuar a ocupar o lugar de poder de sua família ou daqueles que lhe propiciaram frequentar tais lugares. 

Se hoje damos risadas das peripécias do poder medieval e suas formas que nos parecem lacônicas demais. Não devemos esquecer que em nossos dias a hierarquia social se vale de algumas retóricas tão simplistas quanto. O discurso econômico é a nossa teologia contemporânea. Em torno desse dogma radical, fundamentalista, temos alguns auxiliares na sua dominação, entre eles a ideia de língua ou a língua utilizada para exercer o domínio. 

Lá o Latim, agora o inglês, que para além da língua e suas riquezas, tornou-se um fetiche da dominação. A diversidade linguística sobre o orbe terrestre demonstra seu carácter de convenção, pois não é natural. O que implica e revela a capacidade de inventividade humana, inventamos a realidade linguística. E nesse caso a diversidade linguística nos revela como cada povo inventou e criou suas realidades. A redução da língua a uma delas é abrir mão desse rico histórico. 

A questão, portanto, é que nossa teologia e sua língua tem operado os mesmos expedientes de outrora. Saber e poder, como diz Bacon, contínua muito atual. O saber que o poder precisa é um tipo muito específico. Em geral ele é transmitido em família. Difícil é pensar quais modelos de família ou grupos étnicos que conseguem ter vantagem sobre a grande maioria. Pois, qualquer tentativa de categorizar fica uma esforço intelectual muito desonesto. Dizer que famílias de judeus ou libanesas são as que mais transmitem seus legados para as gerações seguintes constitui uma aberração. Ou que os pobres não conseguem, prosa comum entre pensamentos de direita, também é outra ideia horrorosa. Para Carlos Marcos seria a família burguesa, Weber ainda diria burguesa e Protestante. 
Penso que essa transmissão de saber poder no seio da família seja um conjunto de elementos, que vão do étnico, mas não só, pois também passa pelo histórico. Passando pelo religioso ou aquela prática Iluministas de indivíduo que experimenta o religioso de modo autônomo às instituições religiosas ocidentais tradicionais. Por fim, algum tipo de vetor que não sei o que ele é, mas que ele existe ainda sem nome. 

Como o grupo de tradicionalistas de São Paulo evoca, Tradição, Família e Propriedade, parecem ser o caminho. Ainda que devemos nos perguntar sobre o que se constrói a propriedade (escravocrata, capitalista, etc) e qual tradição estamos falando, ou quais fatos heróicos estamos elegendo. Sem pensarmos em que forma de governo familiar estamos pensando. O patriarcal? o matriarcal, o democrático?

Enfim, rascunhos, mas com questões evidentes. Saber e poder estabelecem relações intimas e o saber que todos procuram, especialmente nas milhares de vagas em faculdades populares, está revestido da promessa de poder. A grande decepção, que chegará ao conhecimento de todo esse grande contigente, privado historicamente de qualquer tipo de saber, é que não basta saber. O saber que permite poder é um saber específico dentro da grande oferta de saberes. Saber gramática ou matemática não lhe permitirá ascender ao poder, especialmente se vários outros também detiverem tais habilidades. Você será confrontada com pedreiros, que por escassez, terá mais poder financeiro do que você que fez Direito. 





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