#Psicopedagogia?

Psicopedagogia é uma área de saber que presta serviços à pessoas interessadas em superar dificuldades de aprendizado. 

Alguém, diante a afirmação, pode e deve levantar a questão: mas não há uma psicopedagogia que pressuponha um indivíduo sem os problemas de aprendizado? O seu foco de atuação é apenas o educando com problemas? 

Eu, como pedagogo e filósofo, adiciono algo mais. A Psicopedagogia é Psicologia ou Pedagogia? 

Quero aqui tomar a própria definição de um curso(graduação) em Psicopedaogia, no caso da Unifieo(Osasco/SP): 

“O psicopedagogo estuda os processos de aprendizagem de crianças, adolescentes e adultos e busca os diagnósticos das possíveis causas que impedem a pessoa de aprender. Para isso, a profissão exige conhecimento de Psicanálise, de Psicologia, de Antropologia e de Educação, a fim de que conheça e domine os recursos para analisar o comportamento do indivíduo, ao observar como ele aprende. Também promove intervenções em caso de fracasso na aprendizagem ou de evasão escolar.

Dentre as principais disciplinas estão Contribuições da Psicanálise para a Psicopedagogia, Bioquímica, Neurofisiologia, Antropologia, Psicolingüística, Psicomotricidade, Farmacologia, Diagnóstico Psicopedagógico, Intervenção Psicopedagógica, Psicopatologia e Saúde Mental, Gerontologia, Orientação Vocacional e Profissional, Análise de Situações Psicossociais em Contexto de Trabalho Comunitário e a Atuação do Psicopedagogo.

O profissional formado em Psicopedagogia está habilitado a conduzir processos de orientação vocacional e ocupacional, assim como a integrar equipes inter e transdisciplinares das áreas da saúde e educação. O Bacharel em Psicopedagogia poderá realizar diagnósticos, prognósticos, orientação, prevenção, tratamentos dos distúrbios de aprendizagem em estabelecimentos educacionais, centros clínicos, organizações e centros comunitários, hospitais, consultórios públicos e/ou particulares, núcleos de atenção à saúde da criança e do adolescente, ambulatórios, creches, asilos, empresas, organizações não governamentais - ONGs, centros sócio-educativos e instituições de apoio ao Sistema Nacional de Saúde.”(http://www.unifieo.br/mostra-curso/graduacao/psicopedagogia)

Então, o psicopedagogo fica entre dois campos do saber acadêmico e a meu ver, nesse esboço especulativo, tenta cobrir o que específico dos demais. 

A pedagogia ou a ciência da educação (mais difundido em países como Argentina, Espanha, etc) parece-me que também deveria cumprir os objetivos acima citados. O problema da pedagogia no Brasil é suas implicações na administração escolar, além dos saberes atinentes ao próprio processo do conhecimento. 

Quando fiz Pedagogia dizia aos colegas que não gostava de Escola. Como bom socrático tal afirmação causava certo curto-circuito. Momento filosófico oportuno para chamar a atenção de que Pedagogia não se restringe à ação educativa escolar. E nesse caso, minha hipótese, é que o surgimento de uma psicopedagogia nada mais é do que a sinalização do fracasso da Pedagogia. 

A Pedagogia fracassa junto com a Instituição Escola. Na verdade o fracasso da escola nos moldes “Revolução Francesa” levou junto a Pedagogia, que por um erro histórico se restringiu e até mesmo confundiu a Pedagogia como uma “Escolologia”. Daí a pertinência de uma Ciência da Educação para sinalizar que processos educacionais ocorrem na Escola, mas não se reduz a ela. 

Por outro lado a vinda da Psicologia à áreas da Pedagogia me parece que implica uma ideia de clínica e de mercado de trabalho. 

A clínica médica goza de um estatuto peculiar. Seus poderes ou o valor de verdade do discurso médico são os mais notórios entre os profissionais liberais. Para além dessa cultura mítica em torno do médico em nossos dias, temos uma longa história na qual esse saber rompeu com sua história antiga, a do Físico e que vinha lá da Grécia Antiga, e se fundou nas bases da ciência positivista. A matemática como linguagem capaz de aferir verdades se expandiu por todos os lados e a medicina também se serviu de tal porto seguro. 

A psicologia não ficou para trás. Mesmo havendo várias psicologias (fenomenológica, comportamental, etc), desde a Psicologia Racional de Wolff passando pelo Projeto para uma Psicologia Científica de Freud esse campo do saber também procurou se aproximar do discurso médico. O domínio de seu “objeto" de estudos também marcou um tipo de ação profissional. 

Desse contexto a psicologia com seu conceito de clínica procurou clinicar nos processos cognitivos. Objeto que também lhe é familiar, porém sem os aspectos da burocracia escolar. 

Nesse embate, portanto, vejo que a Pedagogia não só cumpriu um papel burocrático de administração escolar, do qual parece ter gostado e até esquecido dos demais, como também não conseguiu se servir de uma  “constelação" discursiva de poder. Ao se imiscuir profundamente com a escola, a Pedagogia não só abriu mão de ter um discurso de Poder, mas se viu diminuída junto com seu hospedeiro: o ambiente escolar. 

A Psicopedagogia, portanto, tem os mesmos traços da Pedagogia. Uma Ciência da Educação, nesse contexto, tem por objeto vários aspectos cognitivos. Não só os processos ditos “normais”, mas todos eles. Aliás, em uma ciência da educação se tem claro que o aprendizado é particular de cada educando. Jamais confundindo a cognição individual com o modelo de “sala de aula”, as vezes posto como se esse fosse o único processo de aprendizado. 

A não concepção de que cada pessoa tem seu método de apreender as coisas é uma ideologia da escola como único lugar de aquisição do saber. Até parece um discurso teológico em que o clero procura desesperadamente justificar a sua existência e jamais permitem pesar o sagrado para além da instituição que negocia o sagrado.

Por uma Ciência da Educação que dissemine a ideia de que somos seres com variações únicas de aprendizado. Não se adaptar à escola não implica em ter problemas cognitivos. A escola também não é o único lugar de sociabilidade; mesmo havendo escolas temos os arroubos egoístas que jamais vimos em termos de quantidade e tipos. 

Nesse contexto o que devemos pensar como ação educativa é que existe educação pessoal ou personalizada. O que as ciências como as psico-pedagógicas  quer dar resposta não precisa ser nesses termos. O educando não precisa ser abordado como patologia, portanto a ideia de clínica científica a manipular seu objeto deve dar lugar para um local de aprendizado personalizado. 

O problema, a ser tratado em outro texto, é como pensar a educação como algo individual, depois de tanto tempo de ideologia salvadora dessa instituição burguesa. 

Como então pensarmos uma Paidéia Educativa? Certamente não será eliminando os progressos alcançados pelas demais áreas do saber; penso que será a reunião e uso crítico de todas elas. 






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