O incômodo da filosofia



É compreensível que as classes sociais pobre ou ricas não gostem de Filosofia. Os motivos, penso eu, são de duas ordens. O primeiro é nossa herança oriunda de 21 anos de ditadura civil-militar. O outro, parece-me emergir de demandas das próprias pessoas, de fatores que estruturam a vida de cada um de nós no cotidiano.

No caso histórico, pensar foi associado a por em cheque modelos sociais. Foi associado a ideia de que “comunistas" queria substituir nossos modelos de "status quo” por outros. Então, assim, se tenho uma vaquinha, a mesma seria pulverizada. Logo, se pensar é isso, odeio isso.

O segundo motivo, que em partes já está presente no histórico, é a natureza do pensar e sua aparente fluidez das certezas. Assim, se odeia pensar na medida em que na vida cotidiana trabalhamos com certezas. Sou de uma profissão X, faço coisas Y e assim segue. O porteiro cuida da portaria, o motorista conduz o carro, o padeiro faz pão. São toda uma gama de certezas que nos alimenta, nos protege… Então, colocar essas coisas em cheque, mesmo que seja mero exercício, é tido como algo ruim. E se pensar de modo filosófico é brincar com tais certezas, logo não interessa-me.

Outro ponto, o qual creio ser o central, sobre a fluidez das certezas é que pensar pode estar sendo associado à colocar em cheque o “poder" que cada um detém na vida cotidiana. Assim, pensar filosoficamente na escola, pode levar os filhos a turbinarem suas questões em relação à autoridade dos pais. E se os pais encontrarem um nome preciso para brigarem, a vida deles fica muito mais fácil. Se é o professor de filosofia, para que ficar ficar sem um “bode expiatório”.

A questão do poder e da discussão do exercício do poder é de fato um dos vários temas da filosofia. Não é o único. Creio que essa é a causa do pavor que a filosofia gera nas pessoas em geral. Pensar é, por alguns instante, tornar volátil certezas. Caso contrário não se busca novos elementos. E por uma problemática de apresentação da Filosofia, as pessoas não conseguem conceber que é possível pensar, meditar, refletir e só depois tomar decisões; ação. Esse jeito pragmático que somos obrigados a viver não nos permite devaneios. 

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