Viver de Filosofia?


Poucos fariam a mesma pergunta para engenharia. Contudo, se nos atermos alguns segundos, podemos verificar que a resposta “viver de engenharia” tem seu lado absurdo. Especialmente se ela for feita por adultos que já se livraram da angustiante tarefa da escolha profissional. 

Após esse momento confuso ou cheio de possibilidades (pelo excesso nos deixa na dúvida se estamos fazendo a escolha certa), a pergunta corrente é pela felicidade. O que eu faço me faz feliz? É claro que o que eu faço, a natureza desse fazer, importa para a maioria das pessoas. Você espera que sua atividade faça bem às pessoas e por isso também lhe faça bem. 

Utópico, creio, pois o que assistimos são desconexões diversas. Não só o problema clássico do trabalho industrial, retratado no filme, “Tempos Modernos”, de Chaplin, mas fazeres abstratos demais para nossas demandas estéticas. 

Por demanda estética quero sinalizar que nós humanos gostamos de participar não só da concepção de uma cadeira, mas de todo o processo de corte, encaixe e usufruto dessa cadeira. Fazer apenas uma parte, que é o problema do trabalho industrial, nos gera angústia. Precisamos sentir o concebido abstratamente através do tato, gosto, cheiro, etc. Parece que necessitamos de cruzar várias fontes de percepção acerca de algo; e desse modo sua existência nos toca efetivamente. 

Portanto, só entre nós modernos surge um campo do saber peculiar: Terapia Ocupacional. Esse campo do saber certamente é um fazer necessário; o T.O. tem um fazer que faz bem às pessoas. Em termos gerais, a tradicional ocupação humana tem-se mostrado problemática a ponto da necessidade de uma terapia de ocupação. Não sou habilitado a falar de T.O. e é verdade que seu campo de ação não é restrito à problemas oriundas de doenças do trabalho. Contudo, não dá para não considerar que a divisão moderna do trabalho acentuou os “modelos” de ocupações não saudáveis. 

Retornando à nossa questão inicial, viver de filosofia, pretendo avançar dizendo que a filosofia ocupa-se das questões próprias do humano, incluindo “como os humanos” ocupam-se e como ele se envolve nessa ou naquela ocupação. Ocupação, a filosófica, meio que “pentelha" (provocadora?), pois ela acaba por ser uma instância que fica observando de fora e ainda denuncia anacronismos. Cito um único exemplo dessa “pentelhice” que é a clássica “luta anti-manicomial”, tendo a sua “frente” o filósofo Michel Foucault. 

Se o sentido de ocupação filosófica nos é vazio, sem sentido, já é um problema do esvaziamento de sentido pelo qual passamos nos dias de hoje. Falta de sentido que o excesso de existir pela mercadoria tem levado a todos nós. Três sintomas dessa problemática dramática por que passamos nos dias de hoje são os livros de auto-ajuda e as “paraferlhas" (apetrechos não científicos; mas com pose de ciência objetiva) esotéricas, que frequentemente transgridem o “bom senso”, aquela matéria tão bem distribuída segundo René Descartes.   

Não poderia deixar de citar o alto consumo de “fármacos" (grego phárn = veneno ou remédio) contra depressão, seja no Olimpo da medicamentação, U.S.A. (onde o consumo de ritalina, um medicamento, é alarmante) ou aqui, no mundo “sublunar" do Brasil. No qual farmácia está sempre com os seus estacionamentos cheios e a cada dia uma nova unidade das “grandes" redes aparecem do nada. 


A banalidade com que é tratada a filosofia e que se ocupa dela faz total sentido em uma época na qual a vida é banal. Mercadoria substituível, portanto, nada mais lógico o espanto dos mortais humanos/mercadorias por algo que é exatamente o seu oposto: humano.  

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