Conflito Israel e Palestina




O atual cenário envolvendo o Israel e os Palestinos chegou a níveis tão problemáticos que a própria entrada no tema já gera um problema. Habitualmente os meios de comunicação já revelam um problema elementar ao dizer apenas Palestinos e não Estado da Palestina, o que já é motivo para que a conversa inflame e passemos logo para o nível das paixões. 

Por várias vezes que tentei entrar no tema noto essa inviabilidade mesmo de tratar o tema. A oposição é radical, ou você está do lado de Israel ou do lado da Palestina.  O que segue a evocação de argumentos eivados de ódio e a retórica logo se revela inútil, sem poder; apenas dois lados empurrando suas falas; movidos por muito ódio, que os lados tem fartas justificativa.

Creio que a própria tentativa de recuo, de começar de um ponto possível o diálogo irá mesmo irritar a todos. 

Mas algo precisa ser dito, não há justificativa para que Israel massacre os palestinos. Não é possível, baseado em argumentos históricos, de segurança, manter o atual quadro. Israel perde apoio no mundo todo e continuará a contribuir para imagens negativas acerca não só daquele Estado, mas irá contaminar todos os judeus enquanto povo, nação, etnia. 

Tem que haver uma solução, não importa qual. 

Mas por que alguém de fora desse cenário tende a implicar com ele? Quais os motivos que fazem desse lugar no espaço terrestre ser objeto de reflexão em vários mídias espalhadas pelo mundo? Ora, ser lugar de origem de duas grandes religiões, entre outras, sendo ainda referência religiosa importante para uma terceira grande religião é o motivo mais saliente. 

E pelo motivo religioso é que se dá uma primeira explicação das tensões. Foi assim com os cristãos cruzados, que justificaram suas aspirações pela “terra santa” por ser lá a terra de Jesus, mesmo que do ponto de vista da economia, sociologia, entre outros aspectos, os viventes da Europa não tinham conexão lógica com aquele lugar. Vale dizer que os embates na aparência era uma questão de Teologia Política, entre cristãos desejosos de proteger lugares sagrados; e muçulmanos ou islâmicos que lá estavam. 

Na atualidade tende-se à mesma ideia, explicar os impasses pela via religiosa, na atualidade entre Judeus e Islâmicos. Creio que nos dois casos o verdadeiro conflito está para além de ser um conflito religioso, mas ele sempre se coloca de modo adequando quando pensamos em termos de geopolítica, isto é, fatores de ordem econômica e política em primeiro lugar. 

Mas, sem entrar no problema israelo palestino, por que não falamos, por exemplo da ocupação do Reino do Marrocos faz sobre o Saara Ocidental? Ainda mais, quais os motivos os meios de comunicação se calam sobre o Sudão do Sul? Ou ainda, existem vários territórios que foram ocupados e mantidos pela Inglaterra. Um em especial, Acrotíri e Deceleia, estão bem próximos ali de Israel e Palestina, e foram ocupações no contexto da derrocada, provocada interna e externamente, do Império Otomano. São ocupações, mas a famigerada Wikipedia, por exemplo, nem mesmo fala disso; e não há mesmo na Internet, ao menos em português, uma história dessa ocupação. 

Creio que o próprio problema de debater em vários pontos da terra a situação política de um lugar também já é algo peculiar. Já é algo que há interesse em que seja posto na pauta, enquanto vários outros são encobertos. Aliás, o silêncio ou a restrição ao regional de vários outros dramas humanos, provocados por interferência de Estados externos, fruto de interesses geopolíticos, já nos faz pensar que ocupar a agenda internacional, ao menos a ocidental, com o drama específico israelo palestino funciona bem como forma de apagar as demais. Hipótese, vejamos bem, que não apaga o drama real entre palestinos, sendo esses a parte que mais sofre, e israelense, parte que vive sob o pânico da perseguição por todos os lados na Europa e mesmo em outras partes da terra.

O problema dos judeus, grupo humano que se expressa de modo multi-étnico e religioso, ainda é muito vivo na memória daqueles que viveram as perseguições da Segunda Guerra Mundial. Para quem não viveu na pele ser caçado como rato pensa que 70 anos é muito tempo para falar disso. Que seria falso viver sob o pânico de algo “tão antigo”. Quem disser isso nunca viveu a guerra ou nunca conviveu com quem a viveu. Ademais, é vastamente comprovado que os filhos daqueles que viveram a guerra reproduzem dramas próprios dela. Portanto, a guerra é viva entre os judeus e a todos os que vivera ela. Russos, que tiveram, depois da própria Alemanha, o maior contingente de mortos certamente a guerra está viva entre eles. E não é por uma opção, fazer a guerra viver, é uma sina que não se deixa de lado. Ela volta de várias formas, até, e muito frequente, nos sonhos. 

Nesse contexto, da presença da guerra, é que podemos dizer que judeus e judeus-israelenses vivem sim os dramas e o fantasma da guerra. A preocupação compulsiva com a segurança do Estado de Israel não é algo apenas e tão somente fruto da fantasia desse ou daquele fabricante de armas ou lunático. Ela tem base psíquica; judeus dos U.S.A como os da Europa experienciam esse terror cotidianamente. A memória desse povo tem vincada uma longa história de exclusão, segregação. E o fato desse grupo multi-etnico está espalhado por vários países do planeta, pois temos judeus na Índia, na África, nas Américas, na Europa, parece-nos ser uma faceta que explica a presença dos temas políticos de Israel e Palestina está presente nas meios de comunicação em vários países. E mais, pessoas no Brasil ou na Argentina se veem impelidas a discutirem tais temas na medida em que os judeus que aqui vivem se sentem parte integral dessa questão. Aqueles judeus de lá tem a mesma identidade dos que estão aqui, assim é a memória coletiva dessa comunidade. O pertencimento de um judeu brasileiro se dá com toda a comunidade de judeus. Rompendo com a ideia tradicional ou que é hegemônica em nossos dias que funde povo com estado nação. Fusão muito bem compreensiva no contexto dos Estados Modernos na Europa, que forjou essa coincidência entre Estado e Nação/território. 

Por que um brasileiro discute a questão israelo-paletina? Ele o faz por vários motivos, mas sobretudo por haver uma comunidade expressiva de judeus entre nós. Depois, por ser aquele lugar uma referência religiosa cristã, motivo que, ao lado da comunidade judaica, pode contribuir. E por fim, por ser aquela região, denominada pelos Europeus como Oriente Médio, o centro energético que move os avanços tecnológicos do ocidente. O petróleo que ali jorra soma-se como terceiro fator relevante que motiva o tema israelo-palestino se fazer presente nos ‘medias’ ocidentais. 

A ideia, portanto, é nos dar conta de que o conflito existente num ponto da terra nos indigna. E é humano pedir que cesse tal conflito. Contudo, mesmo sendo desumano esse conflito em específico, não devemos esquecer que até mesmo pautar esse problema e não aquele outro já é fruto de intenções. A injustiça pode ser prática já na narrativa desse fato e na omissão daquele outro. Posso usar essa aberração humana para disfarçar aquela outra. A excessiva descrição do drama israelo-palestino acaba por turvar a miséria que hoje está em curso na Líbia, entre vários outros. País que foi atacado militarmente, a pretextos que hoje se mostram falaciosos, pela França e Reino Unido; e que hoje tem a prática de “vender pessoas como escravas”. Ou que na Mauritânia ainda há um percentual expressivo de escravos. Enfim, os conflitos humanos precisam sempre ser combatidos. A vida humana tem que ter sua dignidade restituída em todos os cantos do mundo. 








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