Seminários de Pedagoga da Terra

Pedagogia da terra
Prof. Me. Cídio Lopes. Aprender com a terra.


6. Seminários de Pedagogia da Terra

Na cultura difusa do que é o mundo do trabalho, encontramos o bordão de que é preciso “ser qualificado”. Ideia que move as “escolinhas de informática” ou qualquer discurso dos “Postos de Atendimento ao Trabalhador – PAT. Porém, se consultarmos as pessoas que se submeteram os vários “cursos” não será estranho ouvir desses sujeitos o sentimento de frustração. A sensação que eles irão nos descrever será de que sua realidade continua parecida com a de antes dos cursos. A profusão da cultura de que é sempre culpa do trabalhador a sua exclusão da vida econômica produz na mesma força o fenômeno dos “cursos” que não servem para nada; exceto para as escolinhas de cursos vazios de algum poder transformador da vida do trabalhador.  

SABER SOBRE A TERRA

Desse cenário podemos levantar dois temas. O primeiro é o do saber poder. O segundo é quais métodos são os mais apropriados para se promover um “curso”.

Sobre o primeiro tema, saber e poder, temos que advertir que de fato todos nós desejamos um saber que nos dê algum poder sobre a realidade. Não importa se a realidade é a si mesmo ou às coisas a nossa volta, mas desejamos saber para exercitar algum tipo de poder sobre algo. Saber informática é para deter algo a ser vendido; ser pedagogo (a) é deter poder de saber como funciona a ciência da educação; os processos escolares ou os processos de aprendizado humano. Muitos teóricos irão dizer que toda proposta de educação, toda teoria de currículo, é antes de mais nada uma proposta de estratégias de “luta social”, isto é, antes de saber como funciona esse “instrumento” preciso saber também como fazer uso dele nos jogos sociais, pois se eu abrir mão desse aprendizado e “pensar” que só aprendendo as técnicas ligadas ao próprio instrumento estarei correndo o risco de “fazer cursos fracassados”. O sucesso de um curso é, portanto, sua inserção social. Os cursos que não logram, após sua conclusão, inserir os indivíduos nos jogos sociais serão cursos que apenas farão aumentar a angústia das pessoas que o fizerem.

Ainda sobre esse primeiro tema, saber poder, podemos encontrar o assunto de modo muito explicito em dois lugares do espectro político. Se tomarmos as “ladainhas” de escolas como o INSPER, Bandeirantes, Pueri Domus, entre outros do mesmo tipo, notaremos de modo exemplar como se faz a “inculcação’ diária das ideologias da meritocracia, traço elementar das classes dominantes. O cultivo da “competição”, do “empreendedorismo”, “da iniciativa”, etc perpassa por todo currículo. Doutro lado do espectro político, mas no qual também se tem noção de que todo saber implica um poder, podemos verificar nas práticas pedagógicas existente em assentamentos do MST (Movimento dos Sem Terra) o mesmo cuidado em sempre por em cena nas práticas pedagógicas o fato de que não há um “saber sem um poder”.

O tema do saber poder não se esgota nos dois parágrafos acima, apenas indicamos traços gerais sobre.

METODOLOGIA PEDAGÓGICA DA TERRA

O segundo tema é o método apropriado para um bom curso. A metodologia não é algo totalmente separada do tema anterior do saber poder. O método ou métodos aplicados nos vários cursos se caracterizam por serem “cursos” desprovidos de “poder”. Nesse contexto caracterizam por se fiarem apenas num aspecto do saber, que é a ideia de um “texto” livre de contexto, isto é, quando você não se interessa em falar do contexto de uma ideia é porque o contexto revela mais coisas as quais por interesses políticos não “vem ao caso” falar delas.

Aspectos afetivos, éticos, políticos são todos varridos do texto. Exige-se apenas que se “decore” textos, equações, números e nada mais. Deixa-se para os jogos sociais, fora das escolas e cursos, o que é mais importante que é o saber necessário para que essa “informação”, obtida num dado curso, tenha alguma relevância no poder vigente. Toda uma gama de avaliações necessárias para bem colocar-se no “mercado” é varrida para debaixo do tapete. O cultivo desse diferencial social, que irá determinar o sucesso de quem fez esse e não aquele curso, caberá à vida privada das famílias. Rompendo o bordão popular de que para “ser alguém é só estudar”, pois na verdade já “se é alguém” mesmo sem estudar. O estudo no Brasil é só um adorno, pois os lugares de poder já estão cativados por grupos de pessoas denominadas pela sociologia, filosofia política, como elites.

E só a elite interessa que as escolas continuem centrada num currículo que nunca coloque no mesmo barco saber e poder. Ademais, não estamos ainda falando da “função da escola pública” ou da função que ela hoje cumpre, sendo ela do jeito que está; não se trata de uma escola sem proposta ou fracassada. A escola pública cumpre um papel muito salutar para as elites, portanto, a escola pública é exitosa. Se considerarmos que sua função seja a introjeção da castração política nas massas, a extirpação de qualquer discurso que envolva “saber e poder”, temos que registrar sua eficiência. É importante que as massas sintam que de fato a culpa é dela; que ela de fato precisa fazer “cursos”; que essa carência eterna de não ter “O curso” só será solucionada por um novíssimo curso do “SEBRAI, SENAI, SENAR, SENAC, ETEC, etc. Para aqueles das massas pobres que se revoltarem, que não desejarem fazer mais “cursos”, a violência do Estado chega na forma de repressão policial.

Um método escolar que não associe saber e poder consiste numa estratégia para se produzir pessoas incapacitadas. Presas fáceis das demandas do mercado de “mãos de obra”. O método que todos habituaram como sendo “escolar” no geral é isso. Um jeito de fingir que ensina e, depois, culpar o educando pelo fracasso. Ninguém, contudo, vê que fracassado já é o método, pois ele se assenta sobre um saber sem contexto; daí o privilégio que se dá na atualidade à matemática na escola.

Um método que dê poder ao educando começa por fazer dele sujeito do próprio ritmo de aprendizado. Se nessa etapa a pessoa não consegue gerir seu próprio aprendizado, os demais consistiram em alguém que só faz se for mandado. Essa proposta é corrente na ideia pedagógica da “Escola da Ponte” ou nas práticas do MST e, pasmem, nas escolas de elite é só isso que se faz todo o tempo. É preciso ensinar essa gestão e preparar o educando para esse tipo de autonomia e responsabilidade. Não é algo sem consequências, se apreende ser “gestor” de si, chave elementar para que depois se possa ser efetivamente uma pessoa autônoma. Capaz de selecionar e se empenhar em aprendizados que lhe serão úteis. Que será de fato autóctone no que diz respeito ao cultivo de si. Sem esse aprendizado, sem esse método, qualquer “curso” será sempre um texto “informativo” que não gera “formação”.

Nesse limbo de cursos sem poder, como podemos rapidamente notar, não estão os cursos de elite ou os do MST, mas todos os cursos medianos. Esses que se multiplicam pelos SEBRAI da vida. Cursinhos de 4 horas, cursos para fazer “artesanato”, etc. ETEC, FATEC e toda essa fissura por “cursos práticos”.

Saltando dos métodos dos cursos medianos, chegamos à pedagogia da terra, isto é, o que a terra tem a nos ensinar.

O primeiro passo é que a terra nos impõe que texto e contexto precisam ser apreendido. Como nas ciências militares, não basta ter informação, é preciso saber executar os saber em consequências espaciais.
Nesse sentido, a terra nos impõe o domínio do tempo. Existem coisas muito simples, mas elas não são imediatas. Ocorrem ao longo de um longo período; ter capim para as cabras implica plantar capim; o mesmo demora 60 dias para ficar pronto; se houver erro, você simplesmente não terá como alimentar os bichos, etc.

A terra tem ainda outros desafios, além da capacidade de fazer certas ações em tempos precisos. Faz-se necessário conhecer as dinâmicas da terra, o que nos impõe a importância de que o saber deve ser interdisciplinar. Por mais que eu seja “fera” em algo, preciso de vários saberes que vão da terra (sua composição em termos de química, física, biologia) aos saberes humanos, na medida em que preciso de parcerias diversas com outas pessoas.

Rapidamente podemos perceber que a dinâmica da terra além de por questões de gestão de si, pois é preciso se mover em longos percursos de tempo, coloca também a demanda de vários saberes sobre a terra. E será nessa experimentação concreta e existencial que se organiza o currículo da pedagogia da terra. O saber útil nela não é só o da terra, mas se torna útil o saber que estrutura e prolonga o vivente sobre ela. O saber religioso, por exemplo, se faz presente exatamente nessa dimensão. Como saber da totalidade, o saber religioso tem funcionado como o grande orientador e motivador dos saberes localizados, particulares. E é curioso notarmos nas três grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) seus estreitos laços com os ciclos da terra. Desde o calendário religioso, a metáforas teológicas como cordeiro, pastor, entre vários outras. Portanto, no currículo da pedagogia da terra, a demanda de conhecimento se identifica com as que podemos notar nos currículos formais atuais, porém, indo mais fundo, o currículo vinculado à dinâmica da terra implica a interdisciplinaridade porque assim são as coisas que ocorrem na vida cotidiana de que está próximo dela.

Para além da teoria da pedagogia da terra, viver sobre ela é algo importante. Parece uma contradição, pois em tese todos estamos sobre ela. Contudo, é fácil denotar como conseguimos um estar que nega se vincular à terra. A vida urbana é um “prato cheio”, mas também podemos encontrar no “meio rural” exemplos.


Nesse quadro é que propomos os seminários de pedagogia da terra. Momentos de cultivos que implicam estar sobre a terra. E isso só é possível através de algumas atividades propriamente rurais, como cuidado de bichos e plantas. Sem esse tipo de experiência continuamos negando a terra. Sem essa rotina campesina associada a reflexões filosóficas pouco avançaremos. E como se impõe a ideia de que é preciso de sujeitos, a produção reflexiva sobre esse tema se torna mais rica no coletivo.

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