A culpa é do culpado




Não é de hoje que se atribui a aqueles que ocupam posições sociais ruins os méritos a eles próprios. Por longos anos, séculos-milênios, assim foi o processo escravocrata; em todas as suas variações, mas sobretudo no que nos toca mais imediato, a escravidão das várias etnias de origem do continente africano e ameríndio.

Hoje lemos com certo espanto ou como algo anedótico as discussões teológicas, que se passaram lá pelos séculos XVI- XIX, sobre se “podia ou não” exercer a escravidão. Concorria para esse tema e debates aquela ideia de Aristóteles, na qual mesmo que a “natureza” dos humanos fossem a mesma, poderia variar as circunstâncias históricas; ou será mesmo esses nativos possuidores de “alma”?


Um pouco antes, devemos lembrar que a escravidão no Continente Africano é complexa. Temos pouca informação da “contribuição” árabe, como mercadores, para tal mercado que se estabeleceu pelas entranhas do grande deserto do Saara. Até que um ponto se tornou a “saída” econômica para vários “mercadores” e daí como negócio de nações inteiras.(U.K. Pt. Es. Fr. Etc)

Resta ainda examinar como é hoje o modelo de escravidão existente na Mauritânia; feito no geral pelos locais de ascendência árabe sobre outros locais de ascendência africana subsaariana. Em linhas gerais, o tema da cor da pele parece ser a “lorota” que sustenta tal prática; atribuindo a culpa ao “preto” por ser “preto” e escravo.

Saltando da história mais antiga para nossos dias, assusta-se que se tem conexões ainda em vigor desse “antigo” sistema. Hoje se culpa o pobre, negro, etc, como artífice da sua situação. E esse processo se dá de dois jeitos. Em privado, se culpa diretamente os “pobres” por serem pobres. Esse expediente não é publicável, e apenas alguns afoitos, sobretudo com as vagas extremistas, “postam” nas “redes” sociais.

A segunda forma de culpar o culpado é dissimulada, como de resto é tudo no capitalismo, aliás, o cristianismo é uma das religiões mais dissimuladas... vejamos as relações no interior da Instituição do Catolicismo Romano. Mas como dissimulador temos a cultura da hiper-produtividade; que evidência, sem dizer, o desprestígio pelos inúteis os não-produtivos, que são milhares; e que são “coincidentemente” os pobres.

Essa cultura do produtivo como sendo o bom, o melhor, o desejável esconde vários jogos. Esconde na mesma face do culto do indivíduo “competitivo” e produtivo aquele que é excluído. O cultivo da pessoa “competitiva” ocorre na escola, no clube, sob a exclusão não daquele que “perdeu” o jogo de “tênis” no Club ou daquele que não ficou em primeiro em matemática na escola; que tem mensalidades que já excluem exércitos de outros brasileiros. A exclusão real está na emprega que cuida das estruturas necessárias para que o filho burguês possa usufruir o tempo livre; do motorista e de uma infinita cadeia de pessoas sub-remuneradas que fazem com a cidade funcione. Concorrem para o tempo livre necessário das elites dominantes uma imensidão de pessoas que não são nem mesmo vistas. Afinal, o mundo desses hiper-competitivos não são apenas seus “serviçais” diretos; um “chapa”, (trabalhador que oferece sua força física para descarregar caminhões; eles estão sempre à beira das rodovias que chegam em grandes cidades; passam horas em condições precárias; para serem contratados por caminhoneiros...) um funcionário de uma esteira de distribuição de viveres... todos concorrem para que um modelo que cultiva uma ideia de “pessoas competitivas”, hiper-qualificadas, produtivas, bem sucedidas, funcione.

O discurso cínico e burro é que se “remunera”, e bem, tais subalternos.

E não bastasse as modas ideológicas... que sempre omitem vários aspectos, desde como tais ideias se propagam a questões de que o seu sucesso seja necessariamente construído sobre o insucesso de outro, sobre a pilhagem do outro e sua eliminação, temos ainda as religiões como pedra de toque a consolidar tais ideologias. Não só alas conservadoras do catolicismo, mas amplas igrejas cristãs nas suas infinitas variações, cultivam semanalmente tais ideias. Na simples prática de que “se Deus não faz milagre na sua vida é porque você não fez a sua parte”. Um jeito diferente de dizer a mesma ideia: a culpa é sua.   





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