Seria o português burro?

Português burro!

Rascunhos
Prof. Me. Cídio Lopes


Sim, o título tem dois motivos. Primeiro que chama a atenção, as famigeradas “red lines”. Segundo, trata-se de um tema que tenho me dedicado a estudar, pois, foi sob esse estigma que cresci, sendo eu luso-desdente e assim identificado por todos na comunidade onde nasci e cresci; sempre quis tratar do tema de modo profissional, a título de evidenciar esse problema. Ao chegar no mundo universitário, mesmo sendo ele o da Igreja Católica da Teologia da Libertação, ainda tinha que aprender que esse mesmo “burro” era o colonizador, malvado, causador fundamental de tudo que é ruim a singrar no Brasil. Responsável pela totalidade da escravidão, extermínio dos amáveis nativos. Restava-me ser índio ou afrodescendente. Essa era a moda.  

A moda era abraçar as causas dos “excluídos” de toda sorte; e silenciar, negar, aceitar, que o dominador era fundamentalmente os portugueses; e que era algo inaceitável se identificar com o “dominador”; tese aparada por várias artimanhas ditas marxistas e libertárias. Era mesmo impedido de formular qualquer dúvida a esse respeito, pois logo lhe eram destinados uma etiqueta, preferencialmente africana.

O problema, portanto, é complexo e se assenta sob amalgamas de ideologias as mais diversas, mas, majoritariamente, esse problema cultural se assenta ou se constitui no entrelaçamento das várias derivações marxistas que correm pelos corredores universitários. Assumir-se o que se é, e nesse caso que sé é luso-descendente ou simplesmente o “português” da cidade, tem sido um lento trabalho de des-ocultar algo suplantado a força. Superar ou delinear os efeitos nefastos de toda uma negação, que também se deu com os afro-brasileiros, que se deu pela construção filosófico-teológico de uma figura “dominadora” e causadora da totalidade dos “rangeres” de dentes, ocorre em várias frentes. E tal projeto não se trata de uma saudade de quando “se era o opressor”, mas de que há uma identidade lusitana em todas as latitudes do que seja hoje o Brasil e que a mesma é suplantada, mesmo que sejam todos beneficiário dos efeitos positivos dessa colonização. Dentre eles, os efeitos positivos da unidade territorial que é o Brasil e o uso de uma língua comum.

O primeiro é se dar conta desse direito, desse lugar apagado, mas que sempre foi a minha totalidade fundamental como pesquisador. Para além de uma filiação, sobretudo nos Diretórios Acadêmicos, mas de um nascimento nesse lugar cultural. O que não elimina o caráter opção e construção cultural desse lugar.  O que tenho me proposto na atualidade, especialmente nos estudos do pensamento de Agostinho da Silva, é justamente delinear todo um universo cultural familiar, do ponto de vista mais imediato, e depois de como esse traço cultural e étnico se faz presente em vários setores da vida social. Dizer, fazer emergir, cultivar, assumir, apontar, serão verbos que se inscrevem no desejo de ser sujeito de si; de aproximar os “afetos” dos “pensamentos”; não só citando Nietzsche ou Espinosa, mas sendo radical em retomar uma memoria afetiva (afectiva) lusitana que habita entre nós ou mesmo em nós.

Tal descoberta não é para recolocar um lugar comum, que uma leitura apressada pode levar. Identificar-se com uma cultura, que factualmente ocupou sim protagonismo do processo de colonização, tem implicações específicas, mesmo sendo dominador há uma identidade cultural. Em resumo, há uma dada cultura que em dado momento, sobretudo para resolver seus problemas econômicos internos, parte para o exterior na busca dessa solução. E isso não faz dela inexistente. E se coloca nesse mundo sob essa perspectiva econômica, levando consigo modos e maneira de o fazer. Como brasileiro sou beneficiado da unidade territorial desse vasto país, feita à base de violentas repressões militares das varias revoltas regionais, devo considerar que sendo pertencente à essa etnia também me sinto beneficiado por isso. O que não posso é me impedir de assumir isso pautado numa retórica que cria de modo idílico um mundo sem “luta de classe”. Nesse exato momento, marxistas, ateus, crentes, liberais, que utilizam energia elétrica, computador, somos todos beneficiários das hidrelétricas, essas que retiram famílias de seus lares, inundam topografias tradicionais, etc.  Se levarmos essa lógica ao seu extremo, como humanos só podemos concluir que deveríamos desistir do mundo; pois tudo gera impacto; e o mesmo pode ser visto como algo nefasto.

Nessa diáspora dos naturais de Portugal, eles encontraram pelo caminho vários sócios. E com eles se fizeram vários “modelos de negócios”. Sendo sujeitos desse processo, que economicamente extrai vantagens, legaram suas marcas não só na modelagem de “business”, mas na língua que se falava, no ordenamento moral/jurídico e com seu “sataf”, o “time”, foram fixando-se como moradores desses novos lugares.

Ainda no âmbito de solucionar problemas internos, vários patrícios se deslocam para novas terras; e nelas, participam diretamente ou indiretamente do estabelecimento de novos modos de posse dos territórios; confrontando de modo violento com antigos habitantes das regiões; ou associando a eles, segundo interesses dos mesmos, para fins de fazerem guerras com outros.

O processo colonial, portanto, se assenta na solução de um problema interno, que consiste em procurar a solução noutros lugares; o que gera o quadro de novas parcerias econômicas feitas na base da negociação ou através da guerra. Solução que não é exclusivo de um povo, no caso aqui do “Europeu”. A colonização consiste em recurso humano verificável por toda parte e os expedientes desse processo se repetem, mesmo entre os nativos do que hoje denominamos América ou, sobretudo, entre os reinos localizados no continente Africanos, que tinham no negócio da guerra e captura de escravos um negócio já existente antes das navegações portuguesas e espanholas.

Recolocar a questão da presença da luso-descendência, portanto, é situar uma questão em nova perspectiva até então impedida de assim o fazer. Impedida pela estratégia de situar como fonte de todos os problemas apenas um “colonizador” unilateral; possuidor da totalidade de todo o processo, com poderes extraordinários de governar em todos os lugares; semelhantes ao poder que hoje se tem o “dono do Facebook”, que pode simplesmente retirar do ar a tal rede social; e milhões de usuários ficaram sem acesso.  Nada mais simplista do que atribuir a um grupo tudo o que de ruim e pior nesse processo de interação humana.  Noutro fonte de impedimento, tratando de ridicularizar em todos os detalhes os feitos históricos de tal parcela que compõe o processo colonial. Seja pelo adjetivo amplamente difundido no Brasil de que o português seja burro, isto é, alguém que não tem inteligência, seja por toda uma negação ou destituição dos feitos históricos dessa etnia, pois sempre se associa a ela a “maldade” do mundo. Dois caminhos amplamente construídos no Brasil como forma de suplantar e negar a lusitanidade entre nós.

O processo de “nadificação” avança por todos os lados; quando se ridiculariza tudo o que foi feito por essa dada etnia.  Não importa o que seja; até mesmo ao ponto de omitir os fatos históricos. O êxito do processo de manter uma unidade política em um vasto território, que é o Brasil, por exemplo, fica sem uma explicação. Não se fala nisso; apenas se discorre longamente da crueldade desse ou daquele governo em repreender essa ou aquela revolta. Contudo se cala e não se fala de que somos beneficiários dessas repreensões.  Apenas se discorre sobre o negativo, dando contornos vários a ele.

Esse mesmo acadêmico negador, podendo ele ser socialista ou liberal, acaba beneficiando as ideias provindas das metrópoles. Esse pessimismo estrutural consigo e essa recusa a assumir uma identidade cultural; gera na prática a vassalagem do mundo acadêmico e das elites. Vejamos o caso mais particular, das ciências humanas e sociais. O quanto essas áreas são colonizadas pelo pensamento francês? Foucault é a bíblia do momento. O problema não será resolvido banindo Foucault, pensamento raso, a ideia é como estabelecer relações equilibradas e não de vassalagem; e o tema passa necessariamente por superar essa ideia ingênua que vê com bons olhos tudo que é de fora; negando e exterminando nomeadamente o grupo étnico que fundamentalmente compôs o Brasil.

Devemos somar outra negação discursiva tão importante na formação do pensamento e cultura brasileira, trata-se da escravidão. Esse processo trágico para a formação do país, e com efeitos ainda hoje, não é tratado a contento. As proposições estribadas nesse marxismo diluído e de corredores universitários são modelos insuficientes. Por não tratarem desse ocultamento, vemos hoje florescer a desigualdade social insuportável. Na origem dos problema salta-me aos olhos a questão básica da leitura de si; e não da importação de modelos doutras culturas dominantes; de um afastamento de si; da importação de identidades, quando não identidade construídas das fantasias ora marxistas, ora dos delírios dos mais variados liberais e, na atualidade, dessa aberração colonial chamada neoliberalismo.

Posto isso, ressalta-se que não se pretende mitigar certos fatos históricos, muito bem contornados, delineados pelos historiadores. Houve matança no Leste de Minas, os métodos eram simples e cruéis. Assim se deu a ocupação daquela região; houve escravidão; havia a brutalidade de se manter escravos; nada disso é negável; fustigado na sua dureza. Contudo, não é tudo; o real não se esgota nessa descrição; o real tem suas dinâmicas econômicas e tal interação implicava mais vetores para se explicar. Implicava relações que não estavam definidas de modo simples entre “pretos e brancos”.

O fato mais crucial é que os lugares atuais de narrativas, nomeadamente de algumas universidades públicas brasileiras e suas associações com o mundo editorial e publicitário, são ocupados por pessoas que habitualmente negam a “lusitanidade”; como negam a “africanidade”. Ora eles não falam, portanto silenciam, ora eles se dispõem a falar, como benemerentes, daquilo que não são, mas porque é o politicamente correto e com isso velam.

Retomar e reascender o debate do que seja esse grande corpo de afetos em solo brasileiro, a “lusitanidade”, é colocar o que julgamos ser estrutural na compreensão do que seja Brasil. É trazer a lume um continente de desejos silenciados, aproximando as palavras das coisas ou perpassando os pensamentos dos afetos, como fiadores do que seja o real.

Por fim, retomar a diáspora seja lusitana ou africana não é um desejo de retorno à uma terra, mas retomar um lugar psíquico cultural de estar no presente. O debate dos Estados nacionais consiste noutro tema e de imediato nos parece ser algo que não coincide, ainda que presente e necessário do ponto de vista prático.  A lusofonia tem justamente sua riqueza cultural na medida em que ocorre para além da ideia de identidade entre etnia e nacionalidade, já que ela não é multiétnica e multinacional. A exemplo dos judeus, a título de multietnicidade, o modo e expressão lusitana é composto por interseções asiáticas, africanas, americanas e europeias e sua riqueza está justamente em não subsumir o complexo ao uno; e muito menos subsumir a riqueza cultural que a compõe à uma faceta dessa cultura, como desejado pelo salazarismo. Portugal tem seu lugar histórico como o disseminador desse modo, esse é seu lugar, porém, em termos de processos históricos, hoje, ao compartilhar, todos agora somos protagonistas desse processo, que, aliás, sempre marcou o modo operacional de Portugal por todos os pontos do orbi terrestre, um certo cooperativismo anárquico. Não por dádiva, mas muito mais como método possível de levar a cabo seus projetos de resolução dos seus problemas econômicos.

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