#Ódio político?


Hoje no Brasil emergiu com muita força um sintoma. Sintoma é o lado aparente de algo mais profundo, isto é, um índice que é visível, mas indica outra coisa. O caso nosso é o ódio a um partido político. 

A força desse ódio tem nos levado a não negociar; o opositor tem que assumir um ponto básico, não há opção de esquivar da tese elementar, a saber: o ódio ao “petê”. Apresentar teses contrárias como a de que o político opositor tem envolvimentos, etc, em anda adianta, pois será reafirmado a tese inicial de ódio. 

Em termos históricos temos um correlato. Trata-se do ódio aos judeus que se manifestou na Alemanha de modo exponencial, mas não devemos nos esquecer que o anti-semitismo não se restringiu  a eles. Naquela época de pós Primeira Guerra, tal sentimento de que um povo era a culpa de todos os males foi amplamente cultivada. Nos USA, na Suiça, na Polônia, em França e até mesmo no Integralismo brasileiro. 

Naquele contexto de xenofobia o modo de funcionamento se assemelha muito ao ódio do PT. Devemos lembrar que tal cultura que culminou com o holocausto não começou em sua forma final. Começou como ideia e foi bem devagar passando ao campo da ação. Na cena anterior a Primeira Guerra, por exemplo, já havia tal cultura. Basta lembramos Richard Wagner, o grande compositor alemão e amigo de Nietzsche. Aliás, Nietzsche assumidamente não “fechava" com Wagner e em certa momento de seu pensamento até mesmo o acusa por tais propensões racistas. 

Mas o traço mais geral do anti-semitismo era um modelo de pensamento que fazia orbita à acusação de que o judeu era ruim. Hoje lendo alguns livros da época até mesmo nos perguntamos como tais argumentos totalmente falsos tiveram o poder que tiveram? No livro o Enigma de Spinoza de Irvin D. Yalom temos exemplos de tais insanidades sem nexo. O autor ao escrever essa ficção baseada em fatos reproduz de modo didático a atmosfera de insanidade. 

Portanto, em tais pseudos pensamentos temos um truque antigo. Parte-se de uma tese para se fazer um pseudo diálogo. Aliás, esse expediente tem sua origem em Aristóteles e François Châtelet acusa mesmo Raimundo Lúlio (medieval) de utilizar tal expediente aristotélico para promover um pseudo diálogo interreligioso.

Ainda para tratar desse modelo de falso pensamento, temos o excelente livro “Fala Zé Ninguém”. Nele o autor descreve melhor como a massa pode pode entrar em uma espécie de colapso e ir toda em direções aberrantes. 


A tese, portanto, de que o “pt não é mais o mesmo” é uma imposição dos pseudos debatedores. O que nos leva a outro ponto importante que tal estratégia procura esconder. Trata-se do ódio de classe. O PT é sintoma dessa ódio mais profundo. Um pais que tem sua história recheada de privilégios ainda não aprendeu a viver em épocas de direitos para muitos. Quando aquele que sempre esteve montado em privilégios fica no engarrafamento do trânsito, comum em Paris, Londres, Bostom, etc, logo culpa como causa da fadiga o PT. Porém, o que ele não consegue processar é que agora muitos conseguem ter seu carro; o que também gera problema na hora de estacionar. 

É compreensível o ódio, mas nunca aceitável. Compreensível no sentido de que pessoa que tinha privilégios não aprendeu dever. O privilégio é exatamente isso, alguém que usufrui benefícios mas não dá a contrapartida. Um Estado de Direito é essencialmente de Deveres. Palavra que poucos pensamos ao falar de direitos. Essa ausência não é só entre os que tinha privilégios. Ela também está entre os pobres; que historicamente não tiveram direitos, mas apenas deveres. Deveres sem direitos também produz outra coisa que nesse caso é opressão. 

Tanto oprimido quanto privilegiado sofrem do problema de não saberem que existe uma relação proporcional entre Direito e Dever; e que tal pensamento e prática não são possíveis se uma dessas partes forem desiguais. Ninguém pode ter mais direitos do que deveres. Contudo, no Brasil temos longa história de privilegiados de um lado e de oprimidos de outro. Nos permitindo traçar uma assustadora continuidade de tais desequilíbrios da época do Império aos nossos dias. 

A raiva que pode ser encontrada não só entre os privilegiados, mas entre os oprimidos advém dessa realidade. Privilegiados tendo que se submeter ao fato da ascensão social, o que implica em um tipo de privação (agora tem que fazer fila no aeroporto ou nos engarrafamentos) e oprimidos que experimentaram certos direitos, mas que ainda são confrontados com o desrespeito de outros (falta de moradia; melhores salários; educação…). Entre os dois “raivosos contra o PT” temos em comum o fenômeno mundial do consumo de massa que despolitiza  as pessoas, tornando-as vítimas fáceis das ideologias economicistas da vida social. 

O ódio ao PT, portanto, tem explicação. Contudo, a exemplo do anti-semitismo, jamais pode ter justificativa. E o único caminho para resolver essa espiral do ódio é a formação política das pessoas. Vejamos, política e não doutrinação partidária; Ser político não é estar filiado a uma instituição de representação coletiva; vai além delas e deve ser uma iniciativa radical da sociedade civil. 






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