Seis razões por que outra crise é inevitável

texto publicado em: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22713


Cinco anos depois da queda da Lehman Brothers e da pior crise financeira desde 1929, uma coisa parece certa: outro colapso do sistema financeiro parece ser inevitável. Por que? Porque nós ainda não arrumamos a maioria dos problemas que levaram à última crise. Aqui estão seis razões por que outro desastre financeiro é tão provável.


1. O sistema financeiro paralelo ainda é enorme.

Uma das causas sistêmicas da crise financeira foi o crescimento exacerbado de entidades financeiras sem regulação com orçamentos gigantescos compostas de bens voláteis e com dívidas de alto risco – de companhias de seguro como a AIG a fundos de capital especulativo a financeiras. Boa parte desse sistema todo se mantém intacto depois de cinco anos da crise, e ainda é razoavelmente desregulado. De acordo com o Índice do Sistema Financeiro da Deloitte, em torno de nove trilhões foram bombeados para o sistema financeiro na forma de títulos de capitalização, consórcios, fiança de hipotecas e garantias de pagamento de dívidas. Isso ainda está longe do Velho Oeste que estava em 2007, mas ainda está muito além do que era há uma década.

2. Os bancos estão maiores do que nunca.

Outra razão da crise era o tamanho dos bancos, o que, em escala, fica ainda maior tendo em vista a relação arriscada e a concentração do setor bancário. Quando as apostas gigantescas feitas por esses bancos deram errado, todo o sistema financeiro ficou sob risco. Ainda por cima hoje, resultado da consolidação dos bancos durante a crise e da desregulamentação, os bancos que sobreviveram estão ainda maiores; JP Morgan, Bank of America e Wells Fargo estão maiores hoje do que antes da crise. Propostas de dividir bancos maiores e de reinstituir a Glass-Steagall, uma legislação estadunidense de 1933 que limitava as operações dos bancos, não foram para lugar nenhum – apesar de terem sido apoiadas por gente como o ex-diretor-chefe do Citigroup, Sanford Weill.

3. Os bancos ainda são completamente descuidados.
Você acha que a crise financeira deu um jeito no apetite dos bancos por grandes riscos? Melhor pensar de novo. As perdas multibilionárias da JP Morgan no episódio London Whale mostra que o apetite por grandes riscos na busca de grandes lucros continua vivo e voraz em Wall Street. E o gerenciamento de riscos, constantemente vendido por Jamie Dimon, CEO da JP Morgan, como o grande feito da companhia, continua completamente ineficaz e inadequado, dado o tamanho e a complexidade das operações financeiras. A quebra da MF Global é um episódio igualmente eloquente: Jon Corzine pôs a empresa e todos os seus acionistas em risco ao apostar em moedas estrangeiras que poderiam gerar lucros massivos, mas provocaram um desastre completo. Enquanto isso, a Volcker Rule – que limitaria certos riscos nos investimentos feitos pelos bancos – perece enquanto múltiplas agências federais tentam chegar a um acordo nos termos e regras que deveriam forçar os bancos a manter um capital de segurança e não irem longe demais em suas apostas.

4. Derivativos ainda são pouco regulados.

Os derivativos de risco estavam no epicentro da crise financeira e a Dodd-Frank impôs novas regras ao que Warren Buffet chamou de “armas de destruição financeira em massa”. A partir de junho, a Comissão de Mercados Futuros de Commodities pediu que várias transações derivativas passassem por órgãos internos, mas até agora a regra só se aplicou a taxas de juros e créditos derivados. E não está claro ainda quanto esses órgãos internos são capazes de diminuir os riscos e as empresas estadunidenses ainda podem se encrencar bastante com derivados estrangeiros, fora das garras do controle do governo. Regras para estabelecer mais transparência ainda não estão ativas, e ainda por cima têm falhas que podem comprometer seriamente sua eficácia com os mercados. Finalmente, enquanto ainda se colhem mais dados sobre o mercado de derivados, ainda não se sabe quando haverá um banco de dados consistente o suficiente para que os órgãos reguladores possam monitorar adequadamente os mercados de derivados.

5. Ninguém foi punido pela última crise.

Apesar de uma série de abusos financeiros e perdas de trilhões de dólares, nem um único executivo de alto nível de qualquer empresa financeira foi responsabilizado, processado ou preso. Pelo menos depois da última crise, envolvendo a Enron e a Worldcom, alguns dos grandes envolvidos foram para a cadeia. Dessa vez não. E isso reduz a intimidação de futuros comportamentos semelhantes.

6. Os órgãos reguladores governamentais ainda são mais fracos.

Regular alguns dos negócios mais ricos e poderosos do mundo, sob quaisquer circunstâncias, não é algo fácil. Mas é especialmente difícil quando as agências do governo não têm os recursos necessários para fazer seu trabalho. A Comissão de Segurança e Câmbio e a Comissão de Mercados Futuros de Commodities sofreram desmontes ao longo dos últimos anos. O poder desses órgãos têm se reduzido por meio de cortes nos seus orçamentos no Congresso (e agora pelo sequestro), de desafios legais frente a novas regras e uma tempestade de lobbies – em geral de ex-funcionários dessas mesmas agências. O fato de que tantas regras determinadas pela Dodd-Frank ainda não foram implementadas é evidência gritante da fraqueza dessas agências e do boicote recuo que elas sofreram para fazer reformas financeiras.

Para ter certeza, algumas coisas boas aconteceram nos últimos cinco anos, particularmente, a criação da Agência de Proteção Financeira ao Consumidor. Apesar de grande parte dos sistemas que parecem parte de um cassino no sistema financeiro permanecem.

David Callahan é cofundador da Demos e edita o blog da Demos, PolicyShop.net. David é autor de oito livros e seus diversos artigos foram publicados em lugares como The New York Times, The Washington Post, The Nation, e The American Prospect.

Wallace Turbeville é membro-sênior da Demos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O nada e o tudo: a internet