Religião e Agricultura

7. Religião e Agricultura

Pode parecer muito estranho o simples fato da palavra religião aparecer no contexto de agricultura e de escola agrícola. Como no geral até mesmo os especialistas em educação não lidam com o tema ou as pessoas do senso-comum nada sabem das relações possíveis entre religião e agricultura, faz-se necessário, portanto, preparar o contexto em que se evidência a relação desses temas que ao olhar vulgar são díspares.

Vamos, então, preparar o cenário, em tons bem escolares, para que percebamos o quanto religião e agricultura se relacionam. E antes que o vulgo cristão já venha com suas posologias de “encapaetar” tudo, já avisamos que palavras como “pastor”, “cordeiro”, entre várias outras, são metáforas retiradas exatamente do mundo rural.

Na recente “reforma do currículo escolar da educação básica” (2017-18) tivemos, de modo autoritário, a introdução do conteúdo religião entre os conteúdos curriculares da Educação Fundamental I e II. Apesar da forma como foi feita, algo que surpreendeu pelo fato de não constar numa primeira versão da Base Nacional Comum Curricular – BNCC e ter aparecido na outra, o tema religião, como conteúdo escolar, é fundamental para a formação humana. As pessoas não são máquinas de calcular. Além dos saberes técnicos e humanos, os alunos também precisam se relacionar com a totalidade da existência, dimensão que é tratada pelo saber religioso de várias formas e tradições.

Nesse sentido é oportuno que haja o Ensino Religioso na escola. E para arrefecer a sanha proselitista, isto é, o desejo de querer converter todo mundo à sua “igreja",  temos que dizer logo: não é catequese; não é pregação na Praça da Sé em São Paulo. Não é para converter as crianças a esta ou aquela religião.

Ensino Religioso é fornecer a criança a história das varias religiões. Propiciando com isso não o enfraquecimento da “fé” dos monoteístas cristãos, mas a formação de uma cultura de tolerância; saber que há outras experiências religiosas pode até mesmo favorecer uma melhora nas práticas das igrejas cristãs, pois saber que há outras culturas religiosas, com mais de 4 mil anos (se tomarmos a Índia ou a China), não é um exercício de automática detração do cristianismo. O outro existe para espanto dos fanáticos.

Nesse contexto de ponderação, de que falar de religião não é ficar no discurso “sem graça e maçante” das ingrejinhas, podemos passar para o essencial do que religião e agricultura se vinculam.

A experiência com a terra propicia estados existenciais às pessoas que, frequentemente, são sem nomes. Antes das TVs, que opera na padronização do que cada pessoa pensa ao longo do dia, o contato com a terra e seus processos propunham uma agenda de “estados existenciais” universais, místicos ou espirituais.

A gratidão de uma boa colheita, por exemplo, ou o nascimento de um belo animal são momentos, dentre vários outros, em que se experimenta existencialmente estados que escapam às explicações. Poderíamos, de modo perspicaz, pensar que escapa por falta de um polimento gramatical, o que é meia verdade. Como é conhecido nos comentaristas de Wittgenstein, o “estar do mundo” é o fator místico. O estar dos processos nos quais o homem do campo trabalha e experimenta com certa frequência fracasso, quando o contrário, quando esses processos são exitosos, propiciam tal contato com o inominável.

Tal ideia não é novidade nas reflexões filosóficas, se tomarmos o movimento cultural denominado “romantismo”, aquele de traços filosóficos e frequente entre germanófilos, veremos que o “contato com a natureza” ou com os processos da vida sobre a terra, especialmente os que podemos presenciar na agricultura/pecuária, é a chave para um homem não alienado. O conceito de autêntico irá sempre encaminhar para a atenção desse núcleo da existência que é os processos vitais e de como eles se traduzem na linguagem. O contexto do texto, nesse sentido, serão essas forças de ordem cósmica que encapsulam o ser pensante, que tem capacidade de escrever, compor uma melodia, etc. Os poetas, já entre os gregos antigos, tinham esse lugar de religioso, exatamente por serem os que mais próximos desses estados roçam e deles traduzem em palavras.

Para além da discussão de que o monoteísmo criou outra forma de religião, separando-se de vez da habitual dotação de forças demiúrgicas os fenômenos naturais, podemos retomar sem prejuízo teológico, ao menos do cristianismo e do judaísmo, a relação dessas tradições com a vida rural. Logo veremos a coincidência do calendário com as estações do ano, tanto judaísmo, quanto cristianismo.

O pequeno detalhe a ser ajustado, para podermos notar rapidamente a relação, é lembrar que o calendário no hemisfério norte é o contrário do nosso do hemisfério sul. Por uma questão histórica, absorvemos o calendário do norte e levamos a vida como se tudo corresse bem. O abril, que seria nosso setembro, mês em que temos a “semana santa” ou o ritual cristão no qual seu fundador foi “morto e ressuscitou”, coincide com o fenômeno da primavera, isto é, em climas temperados notamos o surgimento, como mágica, de plantas e todo os cantos de pássaros. A vida, antes melancólica pela neve que deixa tudo com aparência de morto, ressurge fulgurante. Esse é apenas um exemplo de relação entre calendário, religião e os processos da terra.

Para além desse aspecto a ser explorado, que vai além da relação do calendário civil e do religioso, temos outro fenômeno teológico que indica a boa relação das pessoas na lide com a agricultura e a religião que é as reflexões místicas e sua contemplação do entorno. Realidade a ser observada não só no campo, mas que também pode ser feito na vida urbana. Contudo, o isolamento rural propicia sobremaneira tal percepção do "estar do mundo" e históricamente no ocidente será comum encontrarmos no isolamento uma prática de ascese. 

Os processos de cultivo da terra são, no geral, esvaziados de sentido imediato, e históricamente o discurso religioso é que providência o sentido para tal. O ato de cuidar de um animal ou carpir uma horta ou lavoura em sim é esvaziado de sentido. A rotina na terra só é resinificada em momento de celebração da vida humana, que é muito habitual como religião. O que move as pessoas nas atividades que em geral exige movimentação física e, mesmo com máquinas, rotina, não sãos os cálculos dos financistas, mas um sentido maior de viver que é muito bem explicado quando pensamos em termos religiosos. O sentido amplo da vida será sempre acolhido nas igrejas/religião. A rotina da existência corpórea, que implica numa rotina de cuidados materiais, parece operar em sentido contrário ao que é proposto e vivenciado sob égide do discurso religioso. Para quê eu vivo? Para onde eu vou? Uma vez que surgir, como irei desaparecer? Será que desapareço?

Será nesse ponto de prover resposta para tais questões, presente em todos nós humanos, que o discurso religioso funcionará como o verdadeiro motivador da existência de gerações. Por mais que a filosofia consiga, racionalmente, demonstrar as fragilidades do ponto de vista lógico desse ou daqueles discurso religioso, nós humanos precisamos de um sentido total que nos mova ao longo dos anos da vida. Caso contrário, sem esse sentido total para se viver, resta-nos a depressão e uma angústia para além daquela admitida como normal em Kiekegaarde. E, frágil ou não, esse provimento semântico é tentado nas religiões e boa parte delas nos encaminham para uma estreita relação com a agricultura.

Uma educação agrícola não poderia se prescindir de aprofundar nesse tema.


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